Novembro chegou. E, com ele, se aproxima uma data que ainda pesa no coração de Santa Catarina e de todos que amam o futebol: 29 de novembro, quando o trágico acidente aéreo da Chapecoense completará dez anos.
Até essa data, vou compartilhar algumas histórias e lembranças daquele período. Histórias de dor, saudade e perda, mas também de amizade, confiança e lealdade. Porque, por trás de cada nome e de cada lembrança, havia vidas, famílias e relações que o tempo não consegue apagar.
Uma das pessoas mais importantes da minha caminhada foi Delfim Pádua Peixoto Filho, ex-presidente da Federação Catarinense de Futebol. Para muitos, ele foi dirigente. Para mim, foi muito mais: amigo, mestre, companheiro e uma figura paterna.
Estive ao lado de Delfim por cerca de 17 anos — quase 35% da minha vida. Foram 12 anos como chefe de gabinete, além de outras funções que exerci na Federação. Mas nenhum cargo explica a dimensão da nossa relação. O que nos unia era confiança, respeito, cumplicidade e uma lealdade construída no dia a dia.
Delfim era um homem de personalidade forte, difícil de lidar em alguns momentos, mas de convicções firmes. Quando acreditava em alguém, não abandonava essa pessoa. Nos momentos mais difíceis do futebol catarinense, eu sabia que podia contar com ele. Ele nunca se escondeu, nunca me ignorou e nunca soltou a minha mão.
Juntos, vivemos grandes alegrias do futebol de Santa Catarina. Acompanhei conquistas importantes e trabalhei como delegado em campeonatos brasileiros, inclusive na Série A, onde estive entre os profissionais que mais atuaram. Mas as lembranças que guardo com mais carinho não cabem em uma lista de cargos ou realizações. Estão nos gestos, nas conversas e na certeza de que um estava ao lado do outro.
Ele costumava dizer às pessoas: “Se o Júnior não puder estar, eu também não estarei. Se ele não for, eu também não irei.” Para mim, aquelas palavras diziam tudo. Não eram apenas uma frase. Eram a expressão de uma parceria verdadeira, daquelas que se provam com atitudes.
A vida seguiu depois daquela tragédia. Em dez anos, vivi muitos momentos — alegrias, dificuldades e também situações em que senti o peso de ser deixado para trás por pessoas a quem me dediquei. Não escrevo isso para transformar esta homenagem em cobrança. Escrevo porque essas experiências me fizeram compreender ainda mais o valor do que vivi ao lado de Delfim.
A vida ensina que nem todos permanecem quando os tempos ficam difíceis. Por isso, quem permanece merece ser lembrado. Delfim permaneceu. Esteve comigo quando era fácil e quando era difícil. E foi assim que me ensinou uma das maiores lições da minha vida: amizade de verdade não se mede pelo cargo, pela conveniência ou pelo momento. Reconhece-se pela presença, especialmente quando tudo parece desabar.
De Delfim, aprendi muito sobre futebol, política e vida. Aprendi que lealdade não é discurso: é escolha, cuidado e presença. É não deixar alguém sozinho quando essa pessoa mais precisa.
Dez anos depois do acidente da Chapecoense, a saudade continua. E, entre tantas lembranças, carrego comigo a história mais bonita de cumplicidade e parceria que vivi em 17 anos ao lado de Delfim. Ele partiu, mas o exemplo ficou.
E eu nunca vou esquecer: o verdadeiro amigo é aquele que não solta a sua mão quando você mais precisa.
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